Subúrbio vive dias de medo depois de mortes e relatos de tortura

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Portas fechadas, bares e mercadinhos com pouco movimento, ruas quase  desertas. Desde a última quinta-feira,  moradores do Subúrbio Ferroviário estão com medo, após relatos de sequestros de cinco jovens na região. Três deles foram encontrados mortos. Um ainda está desaparecido.

Os relatos começaram  na quinta-feira, mesmo dia em que o PM da Rondesp Washington Luiz Santos Cruz, 40, foi assassinado em Paripe, durante assalto. Segundo testemunhas, todos os cinco raptos foram realizados por homens encapuzados em veículos com vidros escuros. Alguns moradores afirmam que há policiais envolvidos.

As vítimas têm idades entre 15 e 21 anos. Revoltados, moradores realizaram manifestações no fim de semana e tiveram as rotinas alteradas. Dez pessoas já foram mortas no Subúrbio desde sexta-feira, segundo dados da SSP.

Para se ter uma ideia, em todo o mês de julho, a região registrou 12 homicídios. O CORREIO esteve em vários bairros da região, ontem, mas o medo é tão grande que as pessoas entrevistadas só concordaram em falar sob anonimato.

Três das vítimas moravam na localidade do Iraque, em Nova Brasília de Valéria: o cobrador de transporte complementar Ivo Rangel Brito da Silva, 19, encontrado morto na sexta-feira; o servente Reinaldo dos Santos Alves, 23, que sobreviveu após ser raptado e torturado, segundo a família; e o estudante Ruan Vitor Souza Santana, 15, ainda desaparecido. “Estamos vivendo dias de terror. As pessoas estão com medo de sair de casa. Muitos não foram trabalhar, como eu”, declarou uma representante de produtos de beleza, de 33 anos. “Quem tem filho sabe o que estamos passando”, complementou.

Alguns pais não deixaram os filhos irem à escola. “Do jeito que está, não dá. Com qualquer carro que não seja da área, tudo mudo fica apavorado, tranca as portas”, disse uma vendedora ambulante, de 54 anos.“Desde sexta-feira que não vendo uma cerveja. Estou com os engradados pra devolver todos”, lamentou o dono de um boteco, 51 anos. “Além da revolta, estamos com medo que isso não  pare nunca”, declarou um aposentado, de 67.

Durante uma conversa com uma dona de casa, um Fiat Doblô preto passava pela comunidade, e se tornou motivo de pânico. Algumas crianças  correram para suas casas. Outras foram puxadas  por suas mães. “Todos estão assim: tensos. O carro que passou por aqui (no dia dos raptos) foi um Fiat Palio cinza, mas ninguém quer pagar pra ver”, afirmou uma senhora. O Doblô não voltou.

Em Plataforma,  morava Weslei Silva Pinto, 21, morto na sexta-feira. Segundo moradores, ele apareceu morto após ser sequestrado por homens que estavam em um Gol vermelho e um Corsa. Ontem, no bairro, o silêncio era a garantia de vida.  No Largo da Rua da Areia, as poucas pessoas que circulavam rapidamente entraram para suas casas ao perceberem a presença da reportagem. “Aqui, ninguém vê nada, fala nada e nem sabe de nada”, disse uma senhora, da janela, ao ser indagada onde era a casa de Weslei.

Sequestros
Na quinta-feira, o primeiro a desaparecer, às 13h, foi Ruan Vitor Souza Santana, 15, aluno do 6º ano do Colégio Estadual Monteiro Lobato, em Vista Alegre. De acordo com moradores do Iraque, Ruan foi jogado para dentro de um Palio por dois homens encapuzados. “Na sexta, apareceu uma foto no Facebook dele caído no chão, como se tivesse morto. No sábado, colocaram outra com o braço esquerdo engessado. Já no domingo, puseram outra imagem com a boca amordaçada. É alguém que está com a senha do ‘Face’ dele”, disse um amigo do estudante.

Segundo ele, a foto de um suposto sequestrador também foi postada na página de relacionamento de Ruan. “Era um cara com o rosto coberto, segurando uma faca, dizendo que o menino seria solto, mas não aconteceu”, contou uma amiga da família de Ruan. O Caso foi registrado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

A segunda vítima foi Reinaldo, por volta das 15h. “Ele mostrou o crachá de servente em uma empresa, mas mesmo assim levaram ele”, contou um vizinho. Ele foi levado para a Estrada do CIA, onde, segundo vizinhos, foi torturado e quase morreu. “Ele levou coronhadas e está vivo porque a pistola de um dos bandidos falhou. Então decidiram deixá-lo na Lagoa da Paixão”, contou um amigo da vítima.

Enquanto Reinaldo era socorrido por populares para o Hospital do Subúrbio, o cobrador de transporte complementar Ivo Rangel Brito da Silva era jogado para dentro do um Palio, quando conversava com duas amigas no Iraque, por volta das 17h. “Se eu tivesse visto, não deixaria que levassem meu filho”, declarou, emocionada, a mãe de Ivo. O corpo de Ivo foi encontrado na manhã seguinte, amarrado, na Estrada do CIA, amordaçado e com vários tiros.

Também por volta das 17h, Giesson Vieira Barbosa, 17, saiu de casa para comprar pão, em Paripe, quando, segundo amigos, três homens o abordaram e o arrastaram para um Gol vermelho. O corpo dele foi encontrado na manhã seguinte, amarrado e amordaçado, num lixão em Periperi. Já à noite, Weslei Silva Pinto, 21, foi retirado de casa, também por três homens que chegaram em um Gol vermelho. “Arrombaram a porta, diziam que eram policiais e levaram meu filho. Ela trabalhava como repositor na Boticário”, disse a mãe de Weslei, cujo corpo foi encontrado na sexta-feira,  no Lobato.

Corregedoria não investiga casos; ninguém foi preso
Thais Borges
Até o momento, a Corregedoria da Polícia Civil não instaurou nenhum inquérito para investigar se
há envolvimento de policiais nas mortes e desaparecimentos do Subúrbio Ferroviário. O órgão informou que só é possível iniciar uma investigação se houver um registro oficial – o que, segundo a assessoria, não existia, até ontem à noite, embora familiares do jovem Giesson Vieira Barbosa tenham dito ao CORREIO que fizeram uma denúncia na semana passada.

A assessoria informou também que a autoria e a motivação de todos os crimes são desconhecidas. Para a polícia, não há nenhuma indicação de que as ocorrências tenham relação. Weslei Silva Pinto não teria sequer sido morto no Subúrbio – segundo a assessoria, ele foi assassinado no Uruguai, embora no registro da Secretaria da Segurança Pública (SSP) conste que ele foi encontrado no Lobato.

O nome de Ivo Rangel não aparece no boletim da SSP. Entretanto, há, nos registros, um homem não identificado cujo horário da morte e local onde foi encontrado são os mesmos que os informados pela família.  O caso de Reinaldo dos Santos  não está sendo mais investigado pelo DHPP, onde foi ouvido, mas pela 3ª Delegacia (Bonfim).

A polícia também não tem informações sobre o desaparecimento de Ruan Vitor, embora confirme que o caso foi registrado no DHPP. Nenhum dos jovens tinha passagens pela Delegacia do Adolescente Infrator (DAI). A Polícia Civil não soube informar se os dois maiores de idade, Weslei e Reinaldo, tinham registros em outras delegacias.

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